quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Afinal, por que escrever?


Afinal, por que escrever?

Por esses dias, deparei-me com uma pergunta com a qual, imagino, muitos escritores já se depararam em algum momento: por que escrevo? Sim, por que motivo, razão ou circunstância escrevo? Ela me foi feita por um rapaz, por Internet, mas preferi não responde-la de modo tão virtual.
Creio que essa é a questão mais comum de encontrarmos, ainda que não a mais simples, nem mais fácil, de ser respondida. Responder a essa questão, ou melhor, tentar responde-la, além de sanar sua curiosidade, vai sanar um pouco da minha pois, meu amigo, nem eu mesma sei.
No começo, não era sequer escrita, era apenas leitura. Ler com certeza é uma das melhores maneiras de se descobrir escritor. Ora, como saber se gostamos de sorvete de chocolate se nunca provamos? Da mesma maneira podemos pensar: como saber escrever sem gostar de ler?
Pois é, imagino que, se você um dia já leu, se já desenvolveu a leitura por prazer e gostou do que fez e, ainda, se já está viciado, você não necessariamente vai querer escrever, mas as chances de surgir um escritor nessa relação de amor e ódio com os livros aumenta, e muito.
O que vem logo atrás é o querer escrever: um belo dia você acorda com uma vontade de colocar no papel um monte de pensamentos que, de repente, dariam um texto legal. Eis que, nesse momento providencial, uma folha de papel em branco, guardanapo ou papel de embrulho se destacam ao seu olhar. Pronto, não há escapatória...
Tudo bem, aí você escreveu torrentes do que lhe veio à cabeça, matutou, riscou, etc. E agora?
É, amigo, com certeza, a coisa nem começou ainda. Talvez seja nesse ponto que se coloque a bifurcação, cujos caminhos que seguem direções opostas são indicados com as placas “Início” e “Fim”. Os que seguem pelo segundo caminho são os que imaginam que escrever é isso, melhor dizendo, só isso. Eles apenas dão vazão ao que lhes ocorre sem ter preocupação alguma em lapidar o texto, o que sem dúvida desvalorizaria até mesmo um Goethe ou um Cervantes. E caso sejam realmente ambiciosos o bastante para seguir escrevendo, imaginam que escritores nascem prontos – assim como qualquer artista – e gozam de uma situação privilegiada de intérpretes da existência, investidos que são do dom inato(?) da escrita. Está aí um tipo que, com certeza, acaba não indo para frente, não fazendo juízo à designação de escritor. Não que não se deva jogar no lixo o lirismo. Quero dizer que o que não pode é cair no comodismo intelectual de não julgar necessário reler um texto ou poema, estudar gramática ou abri um dicionário.
É aí que, em nossa pequena história, entram os viajantes que seguem o caminho marcado com “Início”. Para esses, ter motivos para escrever, sobre o que escrever – e realmente escrever – é apenas o começo. A questão do talento e amor ao que se faz é muito importante para alguém que se pretenda escritor, e não apenas nesse caso, mas em todas as outras atividades que uma pessoa possa seguir. Por isso, o que faz a diferença do bom escritor – assim como de qualquer outro profissional – é o empenho, a vontade de fazer bem o que se faz e, principalmente, a consciência de que ninguém nasce sabendo tudo, e nunca se pára de aprender.
E é ai que eu queria chegar. Como dito, a questão colocada no princípio, talvez eu não conseguisse responder, não totalmente. O que não signifique que eu não vá tentar. Pensando bem, escrever é um ato de fantasiar, de contar histórias, mas também de colocar para fora o que, por vezes, te alfineta, ou mesmo o que você vê de muito errado e fica indignado com a indiferença do resto do mundo. Escrever é sorrir, é amar, ter a possibilidade de dizer um pouco de você a pessoas que, provavelmente, nunca saberiam da sua existência, nem você da delas. Mas também é chorar, destilar o que te magoa e o que te revolta...
Enfim, a questão é complexa porque rica. Mas uma coisa é certa e, creio eu, todo escritor concorda: escrever não é apenas colocar no papel, em palavras, algo sem sentido e tosco, mas dar a cada idéia, proporção ou sentimento expresso o reluzir singelo e humilde, a fim de permitir que o leitor veja um pouco de você, e quem sabe, um pouco dele também. Afinal, somos todos iguais enquanto seres humanos e o ato de ler geralmente termina no horizonte de um grande espelho te mostrando seu próprio eu no eu de outra pessoa.


Ana Pismel

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Conversa com o Editor - Parte I

Conversa com o Editor
Ciclo de entrevistas



A série de entrevistas Conversa com o Editor, voltada principalmente a escritores, além de interessados por literatura em geral, tem o propósito de tentar elucidar algumas questões sobre a relação editora/escritor, uma vez que é pouco comum que se aborde o tema fora do âmbito específico dessa relação. Um outro propósito é trazer à luz o mercado editorial, para dar ao escritor uma visão dos editores, estudiosos do assunto e profissionais da área.

Por meio de conversas com editores, brasileiros e estrangeiros, como veremos ao longo das entrevistas, será possível avaliar semelhanças e diferenças na perspectiva do mercado editorial nessas duas esferas.



Conversa com o Editor – Parte I

No início da série de entrevistas, temos a oportunidade de conversar com Edson Rossatto 1, escritor e editor da Andross, editora que promove a publicação de escritores iniciantes em antologias, além de outras obras. Visite o site, conheça o catálogo da editora e as antologias em andamento no site www.andross.com.br.


· Edson, antes de mais nada, você poderia traçar um pequeno perfil da atuação da Andross Editora em relação a sua linha editorial e atuação no mercado?

A Andross publica obras de autores em início de carreira. Esses textos são publicados em antologias literárias cujo propósito e divulgar os nomes desses desconhecidos, mas muito talentosos escritores. Alguns autores que estrearam nas antologias da Andross hoje já têm obras publicadas individualmente por outras editoras.


· Ao conhecer a editora é possível constatar que a organização de antologias literárias aparece como um dos segmentos de destaque. Como surgiu a proposta da publicação de obras de escritores iniciantes nesse formato?

A Andross nasceu no campus da Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo, para abrir espaço no mercado aos alunos que não tinham condições de publicar seus primeiros textos. Depois, transcendemos os muros da universidade.

· Como é feita a divulgação das antologias? Na sua opinião, há uma abertura satisfatória dos meios de comunicação em geral quando se trata de divulgação de livros?

Fazemos divulgações em diversos veículos de comunicação, nas grandes capitais e no interior também. No interior acreditamos que os jornais sejam mais receptivos a divulgações desse tipo, principalmente quando existe algum autor que seja da própria cidade.


· Qual a avaliação que você faria da recepção dessas antologias literárias por parte do mercado e do público? Como foi, por exemplo, a participação da Andross na 20ª Bienal do Livro de São Paulo?


Geralmente a recepção é boa, até porque as pessoas hoje em dia não reservam grandes períodos de tempos à leitura. Então, textos curtos ajudam a suprir essa necessidade.

A participação da Andross na Bienal de São Paulo foi muito boa, embora esse evento seja comercial e seja maquiado de “evento de cultura e arte literária”. Infelizmente, só quem tem lucro nesse evento é o organizador, pois os expositores nem conseguem recuperar o que investiram.


· Mudando levemente de assunto: como se dá a seleção das obras a compor as antologias? Quais os critérios usados nessa seleção? Que qualidades são esperadas de uma obra que se pretenda publicável?


Os autores nos enviam suas obras de acordo com o gênero e a temática. Então o organizador da antologia em questão faz a leitura e julga se: 1) tem coesão e coerência; 2) trata-se de uma trama que desperte a atenção do leitor; 3) as idéias estão bem organizadas. Se isso acontecer, a obra pode ser publicada. Aí, entramos em contato com o autor para os trâmites legais, como o contrato.


· Você poderia delinear, mesmo que superficialmente, o perfil das pessoas que procuram esse meio de publicação?


Geralmente são autores que já tentaram publicar por grandes editoras e deram de cara com a dificuldade do mercado editorial em publicar novos autores.


· Como é, em linhas gerais, a relação da Andross com os autores cujas obras publica?


Muito boa! Geralmente quem publica uma vez com a Andross sempre nos procura para publicar de novo.

· Como editor, que tipo de texto interessa a você na hora de selecionar obras para uma antologia? E no caso de outras publicações, como romances ou obras técnicas, por exemplo?

Como editor, publico qualquer texto que seja de interesse de algum leitor. Nessa profissão, temos de deixar nosso gostos de lado e analisar imparcialmente os textos. Como escritor e leitor, aprecio muito contos de terror e de suspense!

Ainda não temos pretensão em publicar romances. Mas em breve a idéia será estudada.


· É comum fazer a seguinte distinção quando se trata do modo como se publica uma obra: a edição independente, na qual se recorre à uma editora em baixa demanda, ou não, que recebe do autor o pagamento pela publicação; e a edição de uma obra que, aceita por uma editora comercial, transforma-se em uma aposta da parte dela, que corre os riscos da publicação e faz a distribuição dos livros, coisa que não ocorre no primeiro caso. Digamos que, atualmente, a primeira opção seja o início, ou mesmo a opção de escritores iniciantes. Nesse aspecto, você vê a Andross como uma prestadora de serviços (no caso das Antologias), como uma editora comercial (pensando nos outros segmentos nos quais ela atua) ou, ainda, como um misto dessas duas categorias?


Penso na Andross como um primeiro degrau para os autores subirem ao topo do mercado editorial. Tentamos mostrar a cara do autor no mercado, procurando jornais e sites para divulgarmos nossas antologias. Com os livros divulgados, os autores também o são. Assim, podem chegar a uma outra editora maior e dizer: “Ei, já publiquei antes. Não sou um autor novato”.


· Você atua em duas perspectivas, como autor e como editor. Quais são as diferenças e semelhanças dessas duas faces quando se trata de idealizar e editar um livro?


Acho que não há muitas diferenças entre o autor e o editor, com exceção de que o editor tem de ser imparcial no julgamento de um texto, coisa que o autor não precisa.


· Essa última pergunta é colocada em duas faces: no caso de dar um conselho aos escritores que aspiram a uma publicação, ou a uma carreira, qual seria ele, do seu ponto de vista como editor? E enquanto escritor?


Tanto como editor quanto como escritor o conselho é o mesmo: humildade. Ninguém nasce sabendo e a vida é um eterno aprendizado. Ao receber uma crítica em um texto, o autor tem de analisá-la antes de se ofender, o que acontece freqüentemente.



1. Edson Rossatto nasceu em São Paulo, Capital, em 1978. Formado em Letras, trabalha, atualmente, como editor de livros, além de ser professor, palestrante e roteirista de HO. Publicou anteriormente os livros Mansão Klaus e outras histórias e Curta-Metragem, além de ter organizado várias antologias literárias.

Contato com o editor: edson@andross.com.br.

Agradeço a entrevista e desejo muito sucesso a Andross


Ana Pismel

Ofício de Escritor

www.anapismel.ws/oficiodeescritor