MÁRIO PRATA - [ 16/11 ]
Daniela JacintoNotícia publicada na edição de 16/11/2008 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno D - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
Para ele, que já retratou a vida em um spa e mostrou que o inferno é trabalhar num banco, entre tantas outras coisas, a internet é a grande aliada da literatura contemporânea. Vale lembrar que Mário Prata foi um dos primeiros escritores a utilizar o recurso da web como um aliado de seus textos. O escritor esteve em Sorocaba no dia 30 de outubro, quando proferiu palestra sobre sua trajetória. Na ocasião, ele anunciou o lançamento de seu novo livro, “Sete Palmos”.
Em tom profético, Mário Prata afirma que vão sair grandes escritores da internet. Aliás, foi ele quem notou o talento de Bruna Surfistinha, a sorocabana Raquel Pacheco, e indicou para sua editora. Prata disse que ela escreve muito bem, mas não deram muita atenção, até que outra editora acabou descobrindo e publicou o trabalho.
Para ele, as editoras deveriam ter caça-talentos na internet. “Deveria ter um editor caçando texto durante 8 horas por dia. Se descobrir dois, a editora pode se dar por realizada, pois essas empresas estão loucas atrás de novos talentos. O futuro e o presente da literatura está ali, na internet”, observa.
Com relação ao velho estigma de que brasileiro não lê pelo alto preço dos livros, Prata não concorda. “As pessoas não lêem e não é pelo preço do livro. Veja bem, o ingresso para um jogo de futebol custa R$ 40 e todo domingo tem 40, 50 mil pessoas no estádio, e em contrapartida, também em todo domingo, ninguém compra esse número de livros”, afirma, concluindo que “então livro no Brasil não é caro, é mais barato que ingresso de futebol”.
É claro que apesar disso, Prata pensa que o livro poderia ser mais barato. “Um livro de R$ 30 custa R$ 5 para a editora fazer, mas é preciso vender a esse preço porque fica 30% para as livrarias, 30% para o distribuidor, 30% para a editora e, adivinhe, 10% apenas para o autor”.
Ainda conforme Mário Prata, durante muito tempo essa profissão permaneceu marginalizada. “Considero Paulo Coelho um grande letrista e foi ele que profissionalizou a categoria de escritor no Brasil. Foi a partir da vendagem de suas obras que as editoras começaram a ‘namorar’ o escritor e ‘roubar’ das outras editoras. Elas passaram a contratar os autores, e então a gente começou a receber um adiantamento para escrever”, conta.
E como é um “horror” que escritor pense em dinheiro, Prata confidenciou que inventou personagens para lidar com essa parte de contrato. “Afinal, para as editoras o Mário Prata não pode exigir que o ambiente tenha ar-condicionado e tal, mas o assessor dele sim”, brincou.
Questionado como se vê inserido na literatura contemporânea, o escritor cita como exemplo a experiência com o livro “Anjos de Badaró”, quando pela primeira vez um autor brasileiro proporcionou a seus leitores o acesso (através da internet) ao desenrolar da história em tempo real. “A partir daquele trabalho comecei a me ligar muito na internet. Aquela foi uma tentativa minha no Brasil, e de Stephen King no mundo. A gente achava que a literatura poderia entrar na internet e hoje tenho certeza que também será o contrário, que os escritores da internet vão entrar para a literatura. Aliás já estão saindo grandes escritores da internet”, afirma. Vanessa Bárbara, cita como exemplo, foi descoberta pelo blog. “E tem uma quantidade muito grande de gente publicando blogs e esse pessoal já está preparado para ser publicado. Nunca nossa língua foi tão usada por jovens como agora. Nunca se leu e escreveu tanto como na internet”, diz.
Para Mário Prata, quem está na internet pode até gastar um tempo com outras coisas, mas no geral ou está escrevendo ou lendo. “Não importa a ortografia, isso não é o mais importante e sim o exercício do pensamento. E os internautas vão aprendendo a escrever. Nos blogs tem muitos tipos de texto, como poesias, crônicas, artigos, e o mais interessante é que existe a possibilidade de fazer comentário, então a interação estimula o novo escritor”.
Entre os escritores contemporâneos, um autor pouco conhecido que indica para leitura é Campos de Carvalho.
Sobre a unificação da Língua Portuguesa, o escritor afirma ser uma das grandes burrices do século 21. “Quando os romanos criaram o império, se existissem filólogos pentelhos ligados a editoras e unificassem o latim, não teríamos hoje o português, o espanhol, o italiano, o romeno e mais umas 10 línguas, cada uma delas com a sua cultura”, critica.
O escritor afirma que conhece Portugal, Angola e Guiné Bissal e na sua opinião não tem sentido juntar as línguas pois o modo de expressão será diferente do mesmo jeito. “O que justifica é o interesse financeiro das editoras, de quem faz dicionário. É burrice dos governos que entraram nessa. São tão pequenas as alterações que não vai mudar nada, vamos continuar não entendendo certas expressões dos outros países. No Brasil, por exemplo, estamos inventando palavras a todo momento”.
Ao falar sobre destaques da literatura brasileira, Mário Prata afirma que gosta de Nelson Rodrigues, sem desmerecer Machado. “O mundo não descobriu a dramaturgia de Nelson. Apesar de Machado ser um grande escritor, ele tinha dois lados fracos, a poesia e a dramaturgia”.
Sobre o que existe de contemporâneo na obra de Machado de Assis, ele afirma ter muita coisa. “Machado foi um escritor à frente de seu tempo e todo bom escritor é contemporâneo. Existe contemporaneidade na literatura dele apesar de seus temas girarem em torno da família e do funcionalismo público, e isso é impressionante”.
Entre as diversas teorias sobre o livro Dom Casmurro, Mário Prata veio com mais uma: “Bentinho tinha ciúme do Escobar. Parece que tinha um caso com ele. Basta ler os trechos que falam só sobre ele para comprovar”.
Daniela JacintoNotícia publicada na edição de 16/11/2008 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 3 do caderno D - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
Para ele, que já retratou a vida em um spa e mostrou que o inferno é trabalhar num banco, entre tantas outras coisas, a internet é a grande aliada da literatura contemporânea. Vale lembrar que Mário Prata foi um dos primeiros escritores a utilizar o recurso da web como um aliado de seus textos. O escritor esteve em Sorocaba no dia 30 de outubro, quando proferiu palestra sobre sua trajetória. Na ocasião, ele anunciou o lançamento de seu novo livro, “Sete Palmos”.
Em tom profético, Mário Prata afirma que vão sair grandes escritores da internet. Aliás, foi ele quem notou o talento de Bruna Surfistinha, a sorocabana Raquel Pacheco, e indicou para sua editora. Prata disse que ela escreve muito bem, mas não deram muita atenção, até que outra editora acabou descobrindo e publicou o trabalho.
Para ele, as editoras deveriam ter caça-talentos na internet. “Deveria ter um editor caçando texto durante 8 horas por dia. Se descobrir dois, a editora pode se dar por realizada, pois essas empresas estão loucas atrás de novos talentos. O futuro e o presente da literatura está ali, na internet”, observa.
Com relação ao velho estigma de que brasileiro não lê pelo alto preço dos livros, Prata não concorda. “As pessoas não lêem e não é pelo preço do livro. Veja bem, o ingresso para um jogo de futebol custa R$ 40 e todo domingo tem 40, 50 mil pessoas no estádio, e em contrapartida, também em todo domingo, ninguém compra esse número de livros”, afirma, concluindo que “então livro no Brasil não é caro, é mais barato que ingresso de futebol”.
É claro que apesar disso, Prata pensa que o livro poderia ser mais barato. “Um livro de R$ 30 custa R$ 5 para a editora fazer, mas é preciso vender a esse preço porque fica 30% para as livrarias, 30% para o distribuidor, 30% para a editora e, adivinhe, 10% apenas para o autor”.
Ainda conforme Mário Prata, durante muito tempo essa profissão permaneceu marginalizada. “Considero Paulo Coelho um grande letrista e foi ele que profissionalizou a categoria de escritor no Brasil. Foi a partir da vendagem de suas obras que as editoras começaram a ‘namorar’ o escritor e ‘roubar’ das outras editoras. Elas passaram a contratar os autores, e então a gente começou a receber um adiantamento para escrever”, conta.
E como é um “horror” que escritor pense em dinheiro, Prata confidenciou que inventou personagens para lidar com essa parte de contrato. “Afinal, para as editoras o Mário Prata não pode exigir que o ambiente tenha ar-condicionado e tal, mas o assessor dele sim”, brincou.
Questionado como se vê inserido na literatura contemporânea, o escritor cita como exemplo a experiência com o livro “Anjos de Badaró”, quando pela primeira vez um autor brasileiro proporcionou a seus leitores o acesso (através da internet) ao desenrolar da história em tempo real. “A partir daquele trabalho comecei a me ligar muito na internet. Aquela foi uma tentativa minha no Brasil, e de Stephen King no mundo. A gente achava que a literatura poderia entrar na internet e hoje tenho certeza que também será o contrário, que os escritores da internet vão entrar para a literatura. Aliás já estão saindo grandes escritores da internet”, afirma. Vanessa Bárbara, cita como exemplo, foi descoberta pelo blog. “E tem uma quantidade muito grande de gente publicando blogs e esse pessoal já está preparado para ser publicado. Nunca nossa língua foi tão usada por jovens como agora. Nunca se leu e escreveu tanto como na internet”, diz.
Para Mário Prata, quem está na internet pode até gastar um tempo com outras coisas, mas no geral ou está escrevendo ou lendo. “Não importa a ortografia, isso não é o mais importante e sim o exercício do pensamento. E os internautas vão aprendendo a escrever. Nos blogs tem muitos tipos de texto, como poesias, crônicas, artigos, e o mais interessante é que existe a possibilidade de fazer comentário, então a interação estimula o novo escritor”.
Entre os escritores contemporâneos, um autor pouco conhecido que indica para leitura é Campos de Carvalho.
Sobre a unificação da Língua Portuguesa, o escritor afirma ser uma das grandes burrices do século 21. “Quando os romanos criaram o império, se existissem filólogos pentelhos ligados a editoras e unificassem o latim, não teríamos hoje o português, o espanhol, o italiano, o romeno e mais umas 10 línguas, cada uma delas com a sua cultura”, critica.
O escritor afirma que conhece Portugal, Angola e Guiné Bissal e na sua opinião não tem sentido juntar as línguas pois o modo de expressão será diferente do mesmo jeito. “O que justifica é o interesse financeiro das editoras, de quem faz dicionário. É burrice dos governos que entraram nessa. São tão pequenas as alterações que não vai mudar nada, vamos continuar não entendendo certas expressões dos outros países. No Brasil, por exemplo, estamos inventando palavras a todo momento”.
Ao falar sobre destaques da literatura brasileira, Mário Prata afirma que gosta de Nelson Rodrigues, sem desmerecer Machado. “O mundo não descobriu a dramaturgia de Nelson. Apesar de Machado ser um grande escritor, ele tinha dois lados fracos, a poesia e a dramaturgia”.
Sobre o que existe de contemporâneo na obra de Machado de Assis, ele afirma ter muita coisa. “Machado foi um escritor à frente de seu tempo e todo bom escritor é contemporâneo. Existe contemporaneidade na literatura dele apesar de seus temas girarem em torno da família e do funcionalismo público, e isso é impressionante”.
Entre as diversas teorias sobre o livro Dom Casmurro, Mário Prata veio com mais uma: “Bentinho tinha ciúme do Escobar. Parece que tinha um caso com ele. Basta ler os trechos que falam só sobre ele para comprovar”.
Três obras de Mário Prata
- Diário de um Magro (Editora Globo)
- Cem Melhores Crônicas (Editora Planeta)
- Purgatório: a Verdadeira História de Dante e Beatriz (Editora Planeta)
Mário Prata indica
Blogs
- Vanessa Bárbara (www.hortifruti.org)
- Bruna Surfistinha (www.brunasurfistinha.com)
- Sérgio Antunes (www.sergioantunes.art.br)



